Pequena Miss Sunshine

Por Bruno Accioly em 12 de October de 2007

Capa do filme “Pequena Miss Sunshine”

Não é todo dia que se coloca no Mercado um filme como este.

Trata-se de uma comédia de costumes, que reúne todos os elementos para fazer qualquer família rir no melhor estilo Domingão do Faustão.

Pegue uma família disfuncional formada por uma mãe bem-intencionada, alquebrada e sem recursos; um pai falido mas confiante na vã filosofia de auto-ajuda que desenvolveu; um avô que foi expulso do asilo por ser usuário de drogas; um tio homossexual, suicida, Filósofo e conhecedor de Proust; um rapaz que sonha ser piloto de caça que fez voto de silêncio até que alcance seus objetivos; e uma adorável menina, cheínha, que sonha em ser Miss.

Mas é mais do que isso: a preciosidade que é “Pequena Miss Sunshine” fala diretamente à porção ridícula que há em mim e em você, ao lado perdedor de cada um de nós, àqueles que não conseguem decolar a despeito de viver tentando. O filme esbofeteia sem pudor a mediocridade da classe média enquanto pisa nos valores que desfilamos uns diante dos outros.

Mas é mais do que isso: trata-se de um filme sobre um regime totalitário que desprivilegia qualquer tentativa de mudança de estado por mérito e que desqualifica qualquer valor que não aquele que, de alguma forma, tenha sido alardeado pelo Sistema, pelo Estado, pela Media, por este Inimigo-mais-Esperto que tentamos apontar qual seja a cada resenha presunçosa de filmes interessantes.

Não há como se abster diante dos subtextos e diante de tantos canais pelos quais a obra se comunica com o público.

Paulo Ghiraldelli Jr. - que pode ser assistido por aqui em vídeo - definiu a Filosofia como: “a disciplina da desbanalização do que, sem ela, seria considerado banal”. Difícil discordar.

A encantadora Olive e suas embonecadas competidoras.

“Pequena Miss Sunshine” é um tratado bastante “econômico” do que há de errado em um pano de fundo carcumido e surrado, que foi estendido no fundo do palco, para enganar uma trupe que esqueceu-se só estar cumprindo um papelzinho coadjuvante, em uma peça que ninguém mais assiste e que já saiu de cartaz sem que lhes avisassem.

Com os experientes diretores de documentários musicais, e estreantes na direção cinematográfica, Jonathan Dayton e Valeri Faris, o filme conta com roteiro de Michael Arndt – o que também não explica muito do sucesso obtido. Os três, ilustres desconhecidos, tomaram de assalto a Academia e a todos os expectadores com essa, magnificamente sutil, peça de luz e sombra!

O ótimo elenco do filme, encarnando nos personagens que viajam na kombi da vida...

O elenco formado pelo grande Alan Arkin, o ótimo Gregg Kinnear, a versátil Toni Collette, o engraçado Steve Carell e o talentoso Paul Dano, tiveram a rara oportunidade de filmar em seqüência, mas a péssima experiência de ver a produção se arrastando por longos cinco anos, graças a problemas financeiros – bastante interessante uma vez que o filme acabou ganhando dois Oscars, foi indicado para quarenta prêmios e ganhou outros quarenta.

Não é nada difícil olhar para este filme como mais uma comédia água-com-açúcar enlatada. É fácil banalizar tamanha sutileza e taxar um filme como este de “superestimado pela crítica”.

Mas quem resolver condenar o filme a tão pequena condição, deveria atentar para dois detalhes muito importantes:

1. Proust

O heróis do personagem de Steve Carell, tão mencionado no filme, é Marcel Proust, o autor de uma das mais espetaculares obras da literatura universal “Em Busca do Tempo Perdido”.

A obra de Proust, composta de 7 volumes que somam 3200 páginas, tem inúmeros pontos de convergência com o filme. No livro, o narrador insistentemente discorre acerca da importância da memória de cada época da vida, enquanto no filme todas estas épocas estão presentes na figura das personagens; é discutido o retorno necessário à inocência para o entendimento da natureza da arte, discussão esta deflagrada a partir de uma perda na família; o homossexualismo é explorado como algo que transcende a noção reducionista da promiscuidade e perversão, invadindo definitivamente o campo do amor.

Os elementos são facilmente identificáveis no filme, embora este não se proponha a estabelecer formalmente uma releitura minuciosa de Proust.

2. Orwell

Outra evidência de que o filme é uma condensação alegórica e que há mais ali do que o que aparece na tela, é a coincidente brutalidade, muitas vezes até risível, com que a realidade arrebata as personagens, remetendo a um pesadelo distópico Kafkiano ou, mais precisamente, Orwelliano.

George Orwell, em seu livro “1984”, faz pesada crítica a brutalidade com que a língua é contraída, desconstruída e corrompida pelo “mundo moderno” e em quanto isso compromete a preservação da identidade e da cultura.
Esta pode parecer uma leitura forçada e que se está lendo demais onde nada existe…

“O que tem isso a ver com ‘Pequena Miss Sunshine’, afinal?!”, seria possível perguntar.

O poster original do filme “1984”, filmado em 1956.

Para quem não identifica Orwell em “Pequena Miss Sunshine”, sugiro que olhe de novo para o filme e para a presença constante do Grande Irmão, na estampa da camiseta do personagem Dwayne, vivido por Paul Dano.

Na melhor tradição da filmografia Distópica, “Pequena Miss Sunshine” se junta a tantos outros como “Brazil“, “O Processo“, “1984“, “Fahrenheit 451“, “THX 1138“, “Fuga do Século XIII“,”Tron“, “Adminirável Mundo Novo“, “Vingador do Futuro“, “Demolition Man“, “Tropas Estelares“, “Gattaca“, “Vanilla Sky“, “Minority Report“, “Matrix“, “Fast Food Nation“, “Dogville“, “AI“, “De Olhos bem Fechados“, “Colateral“, “A Ilha” e tantos outros.

É claro que algumas pessoas vão ter dificuldade de identificar “Pequena Miss Sunshine” como fazendo parte do conjunto de filmes que listei acima. Muitas terão até dificuldade de identificar todos os filmes acima como fazendo parte do mesmo conjunto… mas isto é tópico para outra discussão.

Seja como for classificado, contudo - profundo ou superficial - o filme é delicioso de ser visto, arrancando gargalhadas de uns e lágrimas de outros, enquanto promove a desbanalização de temas como a morte, a beleza e a importância de se saber voltar a ser criança.

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IMDB.com . Os detalhes sobre o filme (em Inglês)
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A Bela do Palco

Por Bruno Accioly em 8 de October de 2007

A capa do filme “A Bela do Palco”.

Há muitas surpresas agradáveis na programação da NET e eu recomendo que se garimpe um pouco antes de se decidir por pegar filmes na locadora.

Hoje tive a oportunidade de assistir a um filme do qual nem sabia da existência, chamado “A Bela do Palco” (do inglês “Stage Beauty”), com roteiro e direção de Richard Eyre.

“A Bela do Palco” se passa na Londres de meados do Século XVII, quando os papéis femininos eram encenados sempre por atores do sexo masculino e quando a lei impedia que as mulheres fizessem apresentações formais em teatros.

Bill Crudup como Ned Kynaston como Desdêmona.

Ned Kynaston, que encarna Desdêmona no “Othelo” encenado nos palcos de Londres da época, é o mais brilhante ator em papel feminino de sua geração, aclamado por toda a aristocracia e venerado por todos, até que Carlos II resolve legislar contra o costume reinante e os homens passam a ser proibidos de encenar papéis femininos.

A história nos remete as mudanças na estrutura patriarcal e, menos obviamente, a mudança do cinema mudo para o falado. Em um ambiente desconhecido, onde não tem todas as regalias que lhe eram garantidas, Kynaston pode perder tudo para sua ajudante de palco, Maria, ela mesma cheia de ambições anacrônicas.

Ned Kynaston e Maria.

O filme conta com um Bill Crudup mais maduro que de costume como Kynaston, a representação interessante de Rupert Everett, o ótimo Tom Wilkinson e a estrela em ascensão Clare Danes, que faz Maria e vem se mostrando uma atriz de grandes recursos em cena.

Danes andou trabalhando em filmes interessantes, como “A Garota da Vitrine” – cujo livro veio para o Brasil com sob o título “A Balconista” em 2002 – e no qual divide a tela com Steve Martin; “Tudo em Família”, em que contracena com Diane Keaton e Sarah Jessica Parker; e “Evening”, com Toni Collette, Natasha Richardson e Vanessa Redgrave.

Uma de suas participações que considero mais notáveis foi em “Adoráveis Mulheres”, de 1994, em que contracena com Samantha Mathis, Kirsten Dunst, Winona Rider, Eric Stoltz, Christian Bale, Gabriel Byrne, Susan Sarandon.

Maria no papel de Desdêmona e Ned Kynaston como Othelo.

A atriz teve pouca sorte em ser escolhida para os papéis para os quais concorreu, como “Garota Interrompida”, “Titanic” e “Lolita”, mesmo assim vem conseguindo se firmar, depois de um início na adorável série “Minha Vida de Cão”, (“My So Called Life”, que passava no Canal Multishow.

Já tivemos a oportunidade de vê-la representando uma personagem de Shakespeare em “Romeu+Julieta”, em 1996, dirigida por Baz Luhrmann, e o resultado foi bastante elogiado.

“A Bela do Palco” é um filme que vale procurar, seja na TV a Cabo, seja na locadora. O filme fala muito às mulheres, mas também fala muito aos homens que se permitem entender que os tempos estão mudando… mas não tão rápido quanto deveriam.

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