O que é Historiografia?

Por Bruno Accioly em 9 de October de 2007

Durante toda a Idade Média era lugar comum que se entendesse que o papel da História não era mais do que recompilar o que havia sido escrito por autores pregressos.

Fazendo breve passagem por este conceito antes de entrarmos em História Oral, vamos, mais adiante entender os motivos desta digressão.

A definição de Historiografia não é tão complicada quanto o entendimento da polêmica sobre a impossibilidade de sua existência antes do Século XIX.

Essencialmente, Historiografia não seria mais do que a etimologia da palavra já diz, ou seja, os escritos (grafia) da história. Assim, ao mencionarmos a História de uma Civilização estaremos falando de seu passado e ao falarmos dos escritos acerca da História desta Civilização estaremos falando de sua Historiografia.

A Historiografia formal, contudo, segundo alguns autores, supõe um rigor metodológico que nem sempre esteve presente no Historiador.

Quando se diz, por exemplo, que Heródoto e Tucídides foram os pioneiros na documentação da História, é importante entender que ambos os autores documentaram-na de forma profundamente diversa.

Mapa das Guerras Médicas. A campanha de Datis e Artafernes é a linha marrom; os vassalos persas estão em amarelo, estados neutros em cinza e inimigos gregos em laranja (Wikipedia).

Heródoto fizera um relato alegórico, cheio de revoluteios e alardes sobre o heroísmo helênico diante da invasão persa. Se preocupou sim em pesquisar junto aos familiares dos que participaram destes combates, mas a preocupação em estabelecer relação causal entre o divino e os fatos se aproximavam mais da poesia épica e até de uma forma de proto-jornalismo.

O Império Ateniense (Wikipedia).

Tucídides vivera um período conturbado, no qual Esparta começava a se ressentir da ascensão de Atenas e tinha início a história da Guerra do Peloponeso – cujos eventos nomearam a obra de Tucídides. General mal sucedido nesta mesma guerra, o pragmatismo na descrição de seu infortúnio através da decadência de Atenas dá a obra status de Documento Histórico Científico, fazendo referência cruzada de relatos, dados factuais e propondo a reflexão sobre os eventos descritos.

A diferença entre os escritos de Heródoto e Tucídides são notáveis e criam uma fronteira entre a documentação poética e a documentação científica da História.

Assim como se percebe grande diferença entre estes dois documentos, é notável a diferença na filosofia de como escrever sobre a História antes e depois do Século XIX. A História pode ter, de fato, começado com estas duas grandes figuras, mas certamente não é tão acertado afirmá-lo no que se refere a Historiografia.

Esta noção de que a Historiografia é nova - pelo menos a Historiografia Ocidental - começou a surgir na primeira metade do Século XX, quando Historiadores americanos, ingleses e franceses começaram a apontar para o fato de que foi só no Século XIX que a mentalidade do Historiador começou a relacionar História, Conhecimento e Cultura.

Arthur Shopenhauer (1788-1860).

Não faltaram, de fato, os críticos da apatia de sua época na análise da História, como era o caso de Arthur Shopenhauer. Graças aos espasmos ideológicos gerados por ensaios como “Parerga e Paralipomena”, a História viria a gestar o início da Historiografia como ela é hoje. Para Schopenhauer já era claro que a metodologia herdada pelos historiadores era mais um fardo que um presente.

Desde o Século XIX é constantemente sugerido, na literatura sobre a Teoria da História e Filosofia da História, que durante toda a Idade Média era lugar comum que se entendesse que tudo que valia a pena já havia sido dito e que o papel da História não era mais do que recompilar o que havia sido escrito por autores pregressos.

Ao mesmo tempo, quase que paradoxalmente, soma-se a esta “esquizofrenia” historiográfica uma espécie de “colorização” da História, que dava a roupagem atual a tudo, terraplanando passado e presente, fazendo com que se imaginasse um mundo de aspecto constante e imutável, que mantinha, desde sempre, todos os costumes da época em que se estava vivendo.

Foi em Mayence, Alemanha, que surgiu a primeira cátedra de História da qual se tem notícia, em 1504.

Por isso mesmo a História sequer era disciplina importante na formação acadêmica antes do Século XVI! Era, afinal, em sua esmagadora maioria, uma disciplina que não precisava de mais do que o decorar, dependia da crença em uma suposta “literalidade” de uma História natimorta e não passava de uma descrição descontextualizada, superficial e monodimensional de eventos que todos repetiam sem ninguém sequer analisar.

A Historiografia é, portanto, mais que os escritos que falam a respeito da História. Ao falar de Historiografia, atualmente, o historiador está falando de documentos que guardam relação com uma tradição metodológica estruturada para proteger o Fazer História de um sistemático trabalho de leitura e replicação, buscando o significado do Fato Histórico dentro do rigor da disciplina que é a História.

Diante desta realidade da história da Historiografia da História - e entendido este conceito - falemos, no próximo ensaio, de História Oral.

Você quer saber mais?
Wikipedia.org . Guerras Médicas . Invasão Persa
Wikipédia.org . Guerra do Peloponeso
Wikipédia.org . Heródoto
Wikipédia.org . Tucídides
Wikipedia.org . Hayden Whyte (Inglês)
Wikipédia.org . Jacques Le Goff
Wikipédia.org . Peter Burke
Wikipédia.org . Arthur Shopenhauer
Você quer comprar online?
História e Cultura: Apologias a Tucídides
História da Guerra do Peloponeso . de Tucídides
Minhas Viagens com Heródoto: Entre História e Jornalismo
Histórias Livro 4º . de Heródoto
Histórias Livro 6º . de Heródoto
Histórias Livro 8º . de Heródoto


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Fonte Histórica

Por Bruno Accioly em 30 de September de 2007

Há extensos debates no que se refere às Fontes Históricas não escritas, sobretudo no que tange a História Oral

Dentro do espírito de falar da Disciplina que é a História, mais do que de falar do passado, este site tem como objetivo fazer com que o leitor entenda qual a situação da História nos dias de hoje, de ontem e possivelmente de amanhã. Para tanto, é importante saber qual o papel de suas técnicas e métodos de identificar, classificar e qualificar uma Fonte Histórica.

Mas o que é Fonte Histórica?

Fonte Histórica é a denominação de todo “artefato”, escrito ou não, que preserve, de alguma forma, a história de uma época, de uma civilização ou de qualquer objeto de estudo. É a Fonte Histórica que nos ajuda a tentar explicar o passado, embora sua existência não garanta a qualidade de nossas conclusões – estas sempre incapazes de se descontextualizar de nosso próprio momento histórico.

As Fontes Históricas são profundamente importantes, sobretudo porque a História, hoje, trabalha com o Paradigma Indiciário e, portanto, com evidências que corroborem para que algo tenha de fato acontecido.

A despeito da existência de evidências, entretanto, o passado não é considerado desvendado, de uma vez por todas, só porque há evidências depondo em favor disso. Sabe-se que há evidências circunstanciais e que aquele que lê as evidências tem inclinações pessoais, opiniões e que, invariavelmente, tira conclusões tendenciosas.

Platão é nossa única Fonte Histórica sobre a existência da Atlântida, e ele ouviu de Crítias tudo o que passou à diante...

É por isso mesmo que é tão importante coletar o máximo de evidências possíveis, seja para “provar” uma ou mais hipóteses, seja para invalidar uma ou mais hipóteses ou, simplesmente, para enriquecer a compreensão de uma determinada época, indivíduo ou evento.

Não é incomum que haja desconforto em trabalhar com a incerteza e, invariavelmente, quem não tem compromisso com a Verdade Histórica, não costuma se furtar a optar por acreditar nesta ou naquela versão porque lhe parece mais provável. Infelizmente (ou não), nossas inclinações e perspectivas acerca de algo ter ocorrido não fazem com que tal crença se transforme em um fato. O Verdade é soberana, nossas percepções individuais do Real são irrelevantes diante dela.

Em Filosofia, a própria Teoria da Verdade é bastante complexa e polêmica. Mas mesmo não nos aprofundando tanto não é complicado explicar a importância de Fontes Históricas para, digamos, o entendimento de uma cidade soterrada ao pé de um monte.

Crítias relata e Platão escreve. É fato? Ou é Boato?

Quanto mais vasos, tijolos, estátuas, desenhos e escritos forem encontrados, mais condições teremos de construir um modelo de como aquela cultura funcionava. Tanto quanto seria importante escavarmos mais de uma casa soterrada para entendermos seu projeto arquitetônico.

Dentre os historiadores há extensos debates no que se refere às Fontes Históricas não escritas, sobretudo no que tange a História Oral, ou seja, ao método de obtenção de memórias relativas a acontecimentos pregressos, de pessoas que os presenciaram ou que ouviram histórias sobre o “fato” em questão.

É bastante compreensível que haja debate, de fato, mas há sérios motivos para se levar em consideração relatos de uma lenda local que informasse, por exemplo, que “os habitantes da tal cidade soterrada ‘’maltrataram as árvores’ no monte acima das casas até que estas soltaram a terra sobre eles”. O exemplo é fictício, mas um modelo suficiente para justificar uma investigação junto aos moradores da região, não é?

E é justamente sobre História Oral que vamos conversar em breve, após fazermos uma passagem pelo conceito de Historiografia.

Você quer saber mais?
Yahoo! Respostas . O que é Fonte Histórica?
Klepsidra.net . A Parcialidade das Fontes Históricas
Submarino.com . “Que é a História Hoje?” (R$ 83,82)
Submarino.com . “História como História da Liberdade” (R$ 54,90)
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